quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Nogueira Baptista-CART 3450

Prefácio à 2ª Edição


Ao avançarmos para a 2ª edição, agora por intermédio da VOXGO, uma editora motivada pelo firme propósito de servir a cultura portuguesa, quero aproveitar a oportunidade para explicitar alguns aspectos que, certamente, ajudarão a compreender o texto, agora revisto.
A obra abre com o capítulo “Guerrilha e Descolonização” que pretende ser um ensaio e uma síntese distanciada, de sentido histórico, tomando como ponto de partida um excerto das “Memórias de Guerra” de um dos maiores vultos que a História politico-militar referenciou – Napoleão. Como ponto de chegada, e como consequência da guerra de guerrilha, são focadas as vicissitudes da descolonização, um cortejo imenso de desgraças que a ganância de alguns sobrepôs ao interesse de milhares. A percepção do que se passou, durante as campanhas militares, poderá ser melhor assimilado, e sê-lo-á, se tivermos presente os contextos anteriores e posteriores ao relato da acção.
A narrativa decorre desde a formação do Batalhão, mobilizado para defender a paz, a ordem e a soberania portuguesa no Norte de Angola, até à desmobilização na vizinhança do 25 de Abril e da implosão do império, tendo como elemento-guia as cartas que o autor escreveu à namorada. Nessas missivas perpassam todo o tipo de interrogações e conjecturas politico-militares, económicas, cientificas, filosóficas, morais, religiosas, etc., que fazem com que este livro seja um texto de pensamento livre, lindo, diversificado e emocionante, próprio da faixa etária dum estudante miliciano.
Tratando-se duma incursão ao interior do teatro de operações da contra-guerrilha duma Companhia operacional, através da qual são condensados os principais aspectos do pensamento e da acção por quem os viveu, é uma contribuição para a História da descolonização em Angola, que o autor denominou de “guerra da integridade”.
O ego de superioridade, raiando arrogância, é a estrela que se liberta da estrutura da História de heróis e de santos com que nos mitificaram os antepassados. E, pelas loas de Camões às aventuras do povo Lusíada, “a quem Neptuno e Marte obedeceram” – Cesse tudo o que a antiga musa canta, que outro valor mais alto se alevanta. O autor assume-se como herdeiro desse legado histórico, ao qual convergimos em obrigação e convicção de dar sequência, numa visão lúcida e realista da conjuntura envolvente e do final que se avizinha.
A capa agrega elementos do teatro de operações: o autor durante uma operação de contra-guerrilha, o emblema do batalhão “Falcões”, o mapa da extensa zona operacional e o quartel de Chimacongo - porta-aviões - construído com o esforço de quantos ali, desde 1961 a 1974, honraram o nome de Portugal.
O título “Contagem Decrescente” tem lugar a partir do texto e da prática da contagem dos dias para o termo da duração da campanha militar. Acontece ter um significado mais amplo, considerando que esta contagem decrescente também o foi para a derrube do Governo do Estado Novo e para o último capitulo da desagregação do império português.
Para o mais de meio milhão de heróis e concidadãos que viveram esta experiência da “Contagem Decrescente”, integrando todos, sem qualquer distinção, os que serviram sob a bandeira de Portugal, aqui fica a minha homenagem:
Quem fez a guerra, fica para sempre com a guerra dentro de si.
A recordação desse percurso físico e mental é feita no sentido da busca duma nova visão. Não se volta ao inferno para ser castigado, mas para safar o que puder ser salvo. É um ponto de encontro!

Boa leitura. Até sempre. Um grande abraço.
NOGUEIRA BAPTISTA

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