sábado, 7 de abril de 2012

Depoimento do Poças-2ª parte

(Cont...)
Fazíamos a tal segurança, "psico", reconhecimento de picadas, protecção a fazendas e à junta autónoma das estradas (JAE), tínhamos um pelotão destacado na Lembôa, tínhamos outro, no rio Coji, a dar protecção à JAE, só tínhamos 2 pelotões no quartel o que era pouco, assim, tínhamos meses de 20 dias de mata, etc.
Agora, cá vai disto, em meados de Novembro de 1972, fomos 4 dias para uma operação de onde resultou o seguinte; a primeira noite, ficámos a dormir numa fazenda, perto das malditas serras que eram três, a serra do Andimba, Zade bite-bite e a serra da Mucaba, era uma zona muito perigosa mas, tínhamos que gramar. Em relação a esta operação, atravessámos um rio, mais ou menos 10 metros de largura, água muito barrenta, com crocodilos e outros bichos. Começámos a caminhar pela serra acima, chegámos a uma certa altura, ouvimos barulhos, era assim, zim, zim, zim, então, o que era quando chegámos ao local, perto tinha 3 ou 4 laranjeiras, onde pelo menos um turra, tinha estado a varejar uma árvore, no chão muitas laranjas boas de casca fina, uma maravilha. Também existia uma casa velha, começámos a comer a ração de combate, para espanto nosso, passados uns 15 a 20 minutos, o Macedo, guarda costas do alferes Patrício que não estava presente, 2 furriéis e o capitão Gil. O Macedo viu de frente o turra, ele fugiu. Foi pegar em armas, só o Macedo podia fazer fogo, fiquei muito irritado, e comecei a caminhar, uns 30 metros para dentro da mata para ver se o via e disse ao capitão, tem por aqui um trilho, começámos a caminhar, andámos uns 150 a 200 metros, vimos uma cubata velha, onde tinha uma esteira igualmente velha, voltámos ao trilho, para meu espanto vejo umas pegadas de pé descalço, caminhámos pelo trilho e chegámos a um morro pequeno, fomos sempre no cimo do monte, andámos para aí uns 500 metros, vimos 3 palmeiras com coque note, em todas havia uma cabaça, para receber o líquido da palmeira que se chama malave, um vinho para eles, nessa altura, o 1º cabo Ferreira das transmissões pisou uma mina antipessoal que rebentou só o detonador, só fez baque porque se a mina rebentasse, adeus Ferreira que cá te quero ver. Fizemos uma batida pela mata, em linha, onde não resultou nada mas, o pior estava para vir, começámos a caminhar, o guia Raul que todos conheciam foi retirado pelo capitão que disse, Poças passa para a frente após o rebentamento da mina pelo cabo Ferreira, recomeçámos a caminhar, vi um cruzamento de quatro trilhos onde estava um cartaz de papelão, com alguns sinais, pendurado, era o código dos turras. Virei 1º para a esquerda e para a direita, não vi nada mas, já se ouvia algum barulho e encontrámos um campo de batatas, abóboras, milho, etc. Continuámos, mais uns metros, o trilho já descia foi quando ouvi um pato e galinhas, eram os turras a desconfiarem da gente, deviam ser eles, vem aí a tropa, mais abaixo, uns 15 a 20 metros, fazia um pouco escuro, esperei por um turra que estava a atar uma cabana com fiteiras, com ramos de palmeira em arco, era a entrada da cabana. Nesse momento fiquei com muitos nervos e vi ele a olhar e a rir-se , só reluzia os dentes e os olhos, foi quando me abaixei por detrás duma árvore, foi quando atirei, dei 2 ou 3 tiros mas, não lhe acertei, ele tinha muita genica, deu 3 ou 4 cambalhotas e conseguiu fugir. Começámos a destruir o acampamento, onde tinha 8 cubatas do lado de cá do riacho e 9 do lado de lá, nessa altura achei uma granada de mão que parecia uma botija de gás, o Melo e o Torres, os dois da minha secção, encontraram uma viola, loiça fina, etc, etc, (Cont...)

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